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Nem sempre é sobre falar: é sobre escutar

  • 26 de fev.
  • 4 min de leitura


Escutar parece algo simples. Afinal, fazemos isso todos os dias. Mas sustentar uma escuta verdadeira é muito diferente de apenas ouvir palavras.


Não se trata apenas da intenção de estar presente. Trata-se do impacto que provocamos quando interrompemos, julgamos, minimizamos ou desviamos aquilo que o outro está tentando expressar. Muitas vezes, acreditamos que estamos ajudando quando, na verdade, estamos bloqueando.


A escuta é uma experiência relacional profunda. E quando ela não acontece, algo importante se perde.


O que significa, de fato, sustentar uma escuta?

Sustentar uma escuta não é ficar em silêncio esperando a sua vez de falar. Também não é oferecer conselhos imediatos, soluções rápidas ou frases prontas. Sustentar é permanecer. É tolerar o desconforto.  É abrir espaço para o que o outro traz, mesmo quando aquilo toca em algo difícil dentro de nós.  É permitir que o outro organize seu pensamento e suas emoções sem ser interrompido.

Escutar exige presença emocional. Exige disposição para não ocupar o espaço com nossas próprias histórias. Exige maturidade para reconhecer que nem tudo precisa de resposta às vezes, precisa apenas de acolhimento.


E isso não é simples. Silenciamentos: quando a escuta é interrompida. 


Nem todo silenciamento acontece através do “cala a boca”. Muitas vezes, ele se manifesta de formas sutis:


  • Quando mudamos de assunto rapidamente.

  • Quando dizemos “isso não é nada”.

  • Quando respondemos com comparações: “ah, mas comigo foi pior”.

  • Quando oferecemos soluções antes de compreender o sentimento.

  • Quando invalidamos: “você está exagerando”.


Essas atitudes, ainda que bem-intencionadas, interrompem a experiência do outro. O que poderia se tornar elaboração vira retração. O que poderia ser partilha vira isolamento.


O impacto disso pode ser profundo. Pessoas que repetidamente não encontram espaço para serem ouvidas aprendem a se calar. Aprendem que suas emoções são “demais”, “inconvenientes” ou “sem importância”. E assim, o silêncio se instala.


O que se perde quando não damos espaço para a escuta? Quando a escuta não acontece, perde-se a oportunidade de vínculo. Perde-se a chance de aprofundar relações.  Perde-se a possibilidade de compreensão real. Perde-se a confiança. Mas, principalmente, perde-se a possibilidade de transformação.


A escuta como experiência emocional

A escuta é uma experiência que organiza o sujeito. Quando alguém encontra espaço para falar e é verdadeiramente ouvido, algo se estrutura internamente. A emoção ganha nome. O pensamento se organiza. A dor encontra contorno.

Sem esse espaço, os sentimentos ficam difusos, confusos, intensos demais. O que poderia ser elaborado permanece acumulado.

Ser escutado é uma experiência que valida a existência. É como se dissesse: “O que você sente importa. Você importa.”


Escutar também é sustentar o próprio desconforto

Muitas vezes bloqueamos a escuta porque o que o outro traz nos mobiliza. A tristeza do outro nos entristece. A raiva do outro nos ameaça. A dor do outro nos confronta com nossas próprias fragilidades.


Sustentar uma escuta implica suportar essas emoções sem precisar controlá-las ou afastá-las rapidamente. Implica reconhecer que nem sempre sabemos o que dizer e que tudo bem.


Nem toda dor precisa ser resolvida no momento.  Algumas precisam apenas ser reconhecidas.


A escuta como ato de humanidade

Vivemos em um tempo acelerado, de respostas rápidas, opiniões imediatas e interrupções constantes. Escutar profundamente se tornou quase um ato contracultural. Mas é justamente na escuta que a humanidade se manifesta.

Escutar é reconhecer o outro como sujeito. É validar sua experiência.  É respeitar seu tempo.  É não reduzir sua vivência ao nosso entendimento limitado. A escuta humaniza porque retira o foco do “eu” e coloca no “nós”. Quando escutamos, criamos espaço para que o outro exista plenamente.


Nós precisamos aprender a escutar

Escutar não é algo que simplesmente sabemos fazer bem. É algo que se aprende e se desenvolve.


Aprende-se a:

  • Não interromper.

  • Não antecipar respostas.

  • Não oferecer soluções imediatas.

  • Fazer perguntas que ampliam, não que interrogam.

  • Suportar pausas.

  • Respeitar silêncios.


Aprende-se, sobretudo, a reconhecer que escutar é um gesto ativo, não passivo.

Na psicoterapia, a escuta é ferramenta central. É através dela que histórias são revisitadas, emoções são nomeadas e sentidos são construídos. Mas fora do consultório, ela também transforma relações familiares, afetivas e profissionais.

Uma relação onde há escuta é uma relação onde há possibilidade de crescimento.


Como começar a sustentar uma escuta mais consciente?

Pequenas mudanças já fazem diferença:

1. Esteja realmente presente

Guarde o celular. Faça contato visual. Dê sinais de que está acompanhando.


2. Tolere o silêncio

Nem toda pausa precisa ser preenchida. Às vezes, o silêncio é parte da elaboração.


3. Pergunte antes de aconselhar

“Você quer que eu apenas te escute ou quer minha opinião?”


4. Valide sentimentos

Mesmo que você pense diferente, é possível reconhecer: “Imagino como isso pode ter sido difícil para você.” Sustentar a escuta é sustentar o outro.


Escutar é oferecer um espaço onde o outro possa existir sem precisar se defender.

É permitir que alguém organize sua dor. É possibilitar que emoções encontrem sentido. É fortalecer vínculos. É criar segurança. Não é sobre ter a melhor intenção.  É sobre o efeito real que nossa postura provoca.


Quando bloqueamos a escuta, fechamos portas internas. Quando sustentamos, abrimos caminhos.


A escuta é, antes de tudo, um ato de humanidade, e também um exercício contínuo de responsabilidade afetiva. Talvez a pergunta não seja apenas se sabemos ouvir. Mas se estamos dispostos a permanecer quando o outro começa, de fato, a falar.


Para saber mais, agendar uma consulta ou acompanhar mais conteúdos sobre psicologia, acesse: www.thaismachadoterapias.com.br


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